Auditorias e agências de risco sob questionamento no caso Banco Master
O ex-diretor de Política Econômica e Dívida do Banco Mundial, Carlos Primo Braga, destacou, em entrevista à Agência Pública, que o Grupo Master obteve avaliações positivas de auditorias fiscais e de agências de classificação de risco reconhecidas pelo mercado financeiro, mesmo às vésperas de sua liquidação.
Braga observou que, embora desconheça o conteúdo específico das interações entre a instituição e os avaliadores independentes, é certo que tais entidades tiveram acesso aos demonstrativos contábeis e dialogaram diretamente com o banco. Para ele, essas empresas tendem agora a revisar internamente os pareceres emitidos, já que a credibilidade das análises pode ser afetada.
Impacto da liquidação do Banco Master
Segundo o economista, a intervenção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) terá repercussões relevantes sobre o caixa da entidade, mas não representa risco sistêmico para o mercado financeiro nacional. O Master possuía menos de 1% dos ativos totais do sistema, o que reduz o potencial de contaminação para outras instituições.
Em declarações anteriores, o diretor-executivo do FGC, Daniel Lima, estimou que a liquidação demandará aproximadamente R$ 41 bilhões. Ainda que o valor represente o maior resgate da história do Fundo, não comprometerá sua solvência, já que o FGC dispõe de cerca de R$ 160 bilhões para cobertura de perdas.
Braga destacou que, apesar da robustez do Fundo, o custo será diluído entre os próprios bancos financiadores, que tendem a repassar parte do impacto aos clientes e credores. Ainda assim, ele não identifica sinais de instabilidade geral no sistema.
Histórico de intervenções
Criado em 1995, o FGC ganhou notoriedade após o caso Banco Bamerindus, em 1998, quando arcou com mais de metade dos R$ 97 milhões de prejuízo. Valores atualizados indicam que o rombo equivaleria hoje a cerca de R$ 441,5 milhões.
Mais recentemente, em 2023, o Fundo interveio nas instituições BRK e Portocred, ambas alvo de irregularidades regulatórias. As dívidas somadas atingiram cerca de R$ 1,7 bilhão, com pouco mais de 54 mil credores afetados. Em menos de três meses, o FGC já havia quitado R$ 1,65 bilhão do valor total.
Responsável pela liquidação do Grupo Master
Conforme publicado no Diário Oficial da União, o Banco Central nomeou o auditor aposentado Eduardo Félix Bianchini como liquidante do Banco Master em 18 de novembro. Ele assumiu a condução das operações de encerramento de cinco empresas do conglomerado:
Bianchini já atuou em ao menos oito processos semelhantes desde 2012, incluindo as liquidações dos bancos BVA e Cruzeiro do Sul.
Segundo explica Braga, as medidas iniciais do liquidante consistem em identificar todos os credores e investidores, validando os valores legais e separando-os daqueles vinculados a eventuais fraudes. Normalmente, esse levantamento leva entre 30 e 40 dias, considerando a análise de documentos internos e a posterior remessa ao FGC.
Com o dossiê concluído, o Fundo deve iniciar o reembolso dos credores elegíveis em até dois dias úteis. Porém, o caso Master envolve aproximadamente 1,6 milhão de investidores, o que aumenta significativamente a complexidade do processo. Por isso, Braga considera provável que a compensação dos clientes ocorra somente ao longo de 2026, especialmente em razão dos feriados e recessos do fim de ano.
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